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terça-feira, julho 25, 2006

Hebreu de Hebreus

PAULO - SUA VIDA, SUAS CARTAS E SUA TEOLOGIA


1 – A Herança Judaica de Paulo

De longe mais importante, aos olhos do próprio Paulo, do que Tarso como seu local de nascimento e sua cidadania romana, e de longe mais importante para nossa compreensão dele, era sua herança judaica. Quando, de uma perspectiva cristã, ele olha para trás para as vantagens naturais de que um dia se orgulhou, ele começa: “Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreu; quanto à lei, fariseu...” (Fp. 3.5).

Aqui, à declaração de que era “do povo de Israel” – isto é, que era judeu de nascimento – ele acrescenta mais detalhes para mostrar que tipo específico de judeu ele era.

Em primeiro lugar, ele pertencia à tribo de Benjamim (afirmação repetida em Rm 11.1). O território original da tribo de Benjamim ficava imediatamente ao norte da área de Judá, que era muito maior. Jerusalém, pertencente a Judá, formava um enclave dentro de Benjamim. Quando a monarquia foi dividida após a morte de Salomão, Benjamim foi trazido pela atração da gravidade par junto de Judá e Jerusalém, formando o reino do Sul. O povo de Benjamim, naturalmente, tendeu a perder sua identidade tribal, porém alguns, pelo menos, não permitiram que ela se apagasse, e mesmo depois do retorno do exílio, houve repovoamento, em Jerusalém e no território adjacente da Judéia, de pessoa s que continuaram a ser conhecidas separadamente como “filhos de Benjamim” (Ne 11.7-9, 31-36). Provavelmente foi destas que a família de Paulo traçava sua descendência.

A escolha de Saulo como nome judaico pelos pais de Paulo pode estar ligada à sua relação tribal. O benjamita mais destacado na história de Israel foi Saul, o primeiro rei de Israel. Se esta consideração teve peso para os pais de Paulo, é possível perceber uma “coincidência não intencional” no fato de que apenas do livro de Atos sabemos que seu nome judaico era Saulo, enquanto das suas cartas é que sabemos que ele pertencia à tribo de Benjamim. Os primeiros escritores cristãos gostavam de ligar a atuação de Paulo como perseguidor da igreja em seus primórdios com o cumprimento das palavras, na bênção do patriarca Jacó aos seus filhos: “Benjamim é lobo que despedaça...” (Gn 49.27) – porém esta fantasia ingênua nada tem a ver com exegese sóbria.

Em segundo lugar, ele diz que é “hebreu de hebreus”. Nos escritos de Paulo, assim como nos de Lucas, “hebreu" provavelmente é um termo mais especializado do que “israelita” ou “judeu”. Em outra ocasião, em uma referência a visitantes de Corinto que tentaram minar sua posição aos olhos dos seus convertidos, ele diz: “São hebreus? Também eu” – e o contexto indica que “hebreu” tem um sentido mais restrito do que “israelita” ou “descendente de Abraão” (2 Co 11.22). Em Atos 6.1, “hebreus” é usado em contraste com “helenistas”, apesar de ambos serem judeus (nesse caso, judeus discípulos de Jesus, membros da primeira igreja em Jerusalém). A distinção provavelmente era lingüística e cultural: os hebreus, no caso, freqüentavam sinagogas em que o culto era realizado em hebraico, e usavam aramaico como sua língua cotidiana; os helenistas falavam grego e freqüentavam sinagogas em que se liam os textos bíblicos e se recitavam as orações nessa língua. Muitos helenistas em Jerusalém provinham das terras da dispersão, como a Cirenaica, Alexandria, Cilícia e Ásia, e freqüentavam a sinagoga mencionada em Atos 6.9. Na dispersão por todo o mundo greco-romano, por outro lado, os helenistas eram maioria entre os judeus residentes, enquanto os hebreus seriam imigrantes recentes da Palestina ou membros de famílias que faziam questão de preservar seus costumes palestinos. Sabemos, a partir de inscrições em Roma e Corinto, que cada uma dessas cidades tinha uma “sinagoga de hebreus”; essa designação pode indicar um lugar de reunião de judeus palestinos (que provavelmente falavam aramaico), em contraste com outras usadas por judeus de fala grega. Filo de Alexandria, contemporâneo de Paulo, ele mesmo um judeu helenista, usa o termo “hebreu” para indicar os que falam hebraico (e, na literatura judaica em grego do primeiro século d.C., incluindo os escritos do Novo Testamento, “hebraico” em sentido lingüístico é amplo o suficiente para abranger o aramaico).

Naturalmente era de se esperar que um judeu nascido numa cidade de fala grega como Tarso seria um helenista. Paulo pode ser chamado de helenista no sentido de que o grego obviamente não era uma língua estrangeira para ele, mas ele insiste em se chamar de hebreu e não de helenista. Além disso, essa insistência não é baseada em sua criação e educação em Jerusalém; a expressão “hebreu de hebreus” indica que seus pais eram hebreus antes dele. É difícil saber quanto crédito se deve dar à afirmação de Jerônimo de que a família de Paulo provinha de Giscala, na Galiléia. De acordo com o relato de Atos, ele podia se dirigir a uma multidão em Jerusalém em aramaico (At 21.40; 22.2), e do fato de que a voz do céu na estrada para Damasco se dirigiu a ele em aramaico – “em língua aramaica” (At 26.14) – é justo inferir que essa era sua língua materna.

Parece, portanto, que Paulo nasceu em uma família judaica que gozava de direitos de cidadania em uma cidade de língua grega, mas que aramaico, e não grego era a língua falada em sua casa, e talvez também na sinagoga que freqüentava. Diferente de muitos judeus que residiam na Anatólia, essa família observava rigorosamente o estilo de vida judeu e mantinha os vínculos com o país natal. Paulo deve ter tido poucas oportunidades para assimilar a cultura de Tarso durante a sua adolescência; seus pais lhe garantiram uma educação ortodoxa ao providenciar que ele passasse seus anos de formação em Jerusalém.

De acordo com a pontuação mais provável em Atos 22.3, na introdução do seu discurso em aramaico, para uma multidão de judeus hostis no pátio exterior do templo, em Jerusalém, ele era: a) “judeu nascido em Tarso da Cilícia”, mas b) “criado nesta cidade” (Jerusalém) e “instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus...”. A última parte desse relato está essencialmente de acordo com sua afirmação mais geral em Gálatas 1.14: “quanto ao judaísmo, avantajava-me a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais.” Ele deve ter ingressado na escola de Gamaliel em algum momento, durante a sua adolescência, mas seus pais cuidaram para que mesmo sua meninice fosse passada sob influências saudáveis, em Jerusalém.

Em terceiro lugar, em suas próprias palavras, Paulo era, “quanto à lei, fariseu” (Fp 3.5). Essa afirmação concorda com Atos 22.3, onde ele diz que foi “instruído aos pés de Gamaliel”, que era o principal fariseu de sua época, e com esta afirmação perante o jovem Agripa: “Vivi fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião” (At 26.5). Ainda mais enfática é sua afirmação perante o Sinédrio: “Eu sou fariseu, filho de fariseus!” (At 23.6). O sentido natural disso é que seu pai ou antepassados mais remotos tinha ligação com os fariseus; é apenas possível, se bem que menos provável, que “filho de fariseus” significa “aluno de fariseu”.


2 – Os Fariseus

Quem, então, eram os fariseus? Eles são mencionados, primeira vez, com esse nome, em meados do segundo século a.C. Em sua narrativa do governo de Jônatas (160-143 a.C.), irmão e sucessor de Judas Macabeu, Josefo diz que nessa época havia três escolas de pensamento entre os judeus: os fariseus, os saduceus e os essênios, dos quais estes últimos eram adeptos rígidos da predestinação, e os saduceus insistiam que todas as coisas aconteciam de acordo com o livre arbítrio de cada um, enquanto os fariseus ocupavam uma posição intermediária que abria espaço para a predestinação divina e a escolha humana. Esse provavelmente não era o ponto mais importante em que os três grupos diferiam uns dos outros, mas Josefo gostava de falar dos paridos religiosos judaicos, como se fossem escolas de filosofia grega, e chamava a atenção para aqueles traços em que ele achava que os leitores gregos e romanos estariam interessados.

Mais adiante ele diz que o sobrinho de Jônatas, João Hircano, que governou a Judéia por mais ou menos trinta anos (134-104 a.C.), no começo foi um discípulo dos fariseus, mas depois se ofendeu com a franqueza de um deles e rompeu com eles, passando a aliar-se com os rivais deles, os saduceus. A partir daí os fariseus formaram um tipo de partido de oposição por várias décadas, sofrendo dura repressão, especialmente às mãos de Alexandre Janeu (103-76 a.C.).

Josefo não delineia os antecedentes espirituais dos fariseus, mas é bem provável que eles surgiram entre as fileiras dos hasîdîm ou “espirituais”, que são chamados “asideus” no livro dos Macabeus (1 Macabeus 2.42; 7.14; e 2 Macabeus 14.6). A origem desses asideus provavelmente deve ser procurada entre o povo fiel a Deus na Judéia que, algumas décadas após o retorno do exílio, agruparam-se com o propósito de se encorajar mutuamente, no estudo e na prática da lei sagrada, em meio ao que eles entendiam como declínio moral e religioso. No livro de Malaquias somos informados de que “os que temiam ao Senhor falavam uns aos outros; o Senhor atentava e ouvia; havia um memorial escrito diante dele para os que temiam ao Senhor e para os que se lembram do seu nome. Eles serão para mim particular tesouro, naquele dia que prepararei, diz o Senhor dos Exércitos; poupá-los-ei como um homem poupa a seu filho que o serve” (Ml 3.16-17). E estes cujos nomes foram registrados no livro como memorial não apenas seriam poupados naquele dia vindouro, mas também seriam os executores da sua sentença contra os ímpios: “Para vós outros que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas [...]. Pisareis os perversos, porque se farão cinzas debaixo das plantas dos vossos pés, naquele dia prepararei, diz o Senhor dos Exércitos". (Ml 4.2-3).

A devoção apaixonada desse povo à lei do seu Deus é ilustrada muito bem no Salmo 119, composição de alguém que suportou dificuldades e perseguições, por causa da sua lealdade aos “testemunhos” divinos, porém continua a considerá-los uma luz para o seu caminho e mais doces do que mel ao paladar. Eles deploravam a intromissão de costumes helenistas na vida judaica, sob os ptolomeus e selêucidas, e eram desprezados como estraga-prazeres antiquados pela geração mais jovem, mesmo nas famílias sacerdotais, que abraçou com fervor a nova moda. Quando, porém, o helenismo mostrou sua face inaceitável, na ação de Antíoco Epifânio que prometia extinguir a identidade religiosa e nacional dos judeus, foram os asideus que demonstraram ser os patriotas mais autênticos. Alguns deles opuseram resistência ferrenha às forças selêucidas, e conquistaram a coroa do martírio. Outros, talvez a maioria, uniram-se à família dos asmoneusJudas Macabeu e seus irmãos – e a seus seguidores, quando elevaram o padrão da revolta e iniciaram a guerra de guerrilhas contra os selêucidas.

A guerra de guerrilhas foi mais bem sucedida do que era esperado. O rei e seus conselheiros perceberam que sua política para a Judéia fora equivocada, e perto do fim de 164 a.C. a reverteram, permitindo que os judeus novamente praticassem sua religião ancestral e restaurassem o templo em Jerusalém, para o culto ao Deus de Israel. Muitos asideus estavam dispostos a contentar-se com isso, uma vez que a prática livre da sua religião era o objetivo da sua resistência. Eles não romperam imediatamente sua aliança com os asmoneus, mas não colaboraram mais com tanto entusiasmo na luta pela independência, especialmente depois de ver que essa luta implicaria o crescimento do poder asmoneu. Quando Jônatas aceitou o sumo sacerdócio em 152 a.C. das mãos de um pretendente ao trono selêucida, um grupo de asideus – que acabou formando a comunidade de Qumran – ficou tão furioso com essa usurpação da dignidade ancestral da casa de Zadoque que se recusou a reconhecê-lo como tal e até a adorar no templo, que fora profanado pela ação ilegítima do próprio Jônatas e dos seus herdeiros e sucessores.

Quando a independência política foi afinal obtida, o sumo sacerdócio foi confirmado para a família dos asmoneus, pelo decreto de uma assembléia popular. Muitos asideus, porém, não estavam contentes com isso, apesar de não poderem ir tão longe como a minoria intransigente que optou sair da vida pública, por causa da sua objeção à posse do ofício sagrado pelos asmoneus. Josefo, ao falar do rompimento entre os fariseus e João Hircano, diz que o que ofendeu João mortalmente foi a proposta de que deveria contentar-se com a liderança política e militar e desistir do sumo sacerdócio.

Será que os fariseus, então, eram asideus? Parece que sim, ou, pelo menos, que surgiram dentro da comunidade dos asideus e devem ser mesmo considerados o principal sucessor dela. A designação “fariseus” deriva da raiz hebraica e aramaica que significa “separados”. A palavra grega pharisaioi evidentemente é uma transliteração do aramaico p’rîsayyâ, “os separados”. Muitos entendem que eles receberam esse nome, por terem se afastado da aliança com os asmoneus, mas talvez o sentido seja mais geral, indicando sua política de separação total de tudo o que poderia trazer impureza moral ou cerimonial. Essa separação era o outro lado da santidade a que eles se sentiam especialmente chamados. Isso é expresso em um comentário rabínico posterior sobre Levítico, que amplia a instrução: “Santos sereis, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo” (Lv 19.2): “Assim como eu sou santo, vocês também precisam ser santos; como eu estou separado (heb. parûs), vocês também precisam ser separados (heb. p’rûsîm)".

Os fariseus tomavam muito cuidado para guardar a lei do sábado e as restrições de alimentos, perpetuando assim os princípios dos judeus que foram martirizados por Antíoco IV, e sofreram torturas e morte para não apostatar nessas coisas. Davam escrupulosamente o dízimo do produto da terra – não apenas cereais, vinho e azeite, mas até as ervas da horta – e se recusavam a comer alimentos sujeitos ao dízimo, enquanto este não estivesse pago.

Em seu estudo da lei, eles elaboraram um conjunto de interpretações e aplicações que, com o tempo, adquiriu uma validade igual à da lei escrita, e sua origem, numa ficção jurídica, era atribuída a Moisés no monte Sinai, junto com a lei escrita. O propósito dessa lei oral – a “tradição dos anciãos”, como é chamada nos evangelhos (Mc 7.5) – era adaptar as prescrições antigas às situações diferentes, depois de tanto tempo, e impedir que fossem descartadas como obsoletas e impraticáveis. Havia diferentes escolas de interpretação entre os fariseus, mas todos concordavam com a necessidade aplicar a lei escrita nos termos da lei oral. Isso os distinguia dos seus principais opositores teológicos, os saduceus, que acreditavam (pelo menos em teoria) que a lei escrita deveria ser preservada e aplicada sem modificações, não importa o peso que sua imposição literal colocaria sobre as pessoas.

Não temos informações suficientes sobre a teologia dos saduceus, porque nenhum relato de primeira mão chegou até nós. O que sabemos apenas tem relação com os pontos em que diferiam dos fariseus. Sabemos, por exemplo, que, diferente dos fariseus, eles diziam que “não havia ressurreição, nem anjo, nem espíritos” (At 23.8). A fé na ressurreição, mantida pelos fariseus, é atestada ente os martirizados por Antíoco; ela deve ser distinguida da idéia (expressa, por exemplo, por Bem Siraque) de que o tipo mais desejável de imortalidade era a lembrança pela posteridade das virtudes de um homem bom, especialmente quando eram reproduzidas nos seus descendentes. Os saduceus podem muito bem ter considerado essa idéia mais coerente com os primeiros textos – apesar de alguns deles ficaram surpresos, certo dia, em Jerusalém, por volta do ano 30 d.C., ao ouvir um visitante da Galiléia deduzir a esperança da ressurreição da declaração divina feita a Moisés da sarça ardente. Quanto à descrença dos saduceus em anjos e demônios, o que eles rejeitavam, foi provavelmente o conceito de hierarquias opostas de espíritos bons e maus, cada uma encabeçada por sete arcanjos e arquidemônios conhecidos pelo nome. Eles podem ter reconhecido uma afinidade entre essas crenças dos fariseus e as da religião de Zoroastro; realmente, um estudioso chegou a sugerir que “fariseu” significava originalmente “persa” e que era uma designação pejorativa, inventada pelos saduceus, para seus opositores. Isso é improvável, mas pode-se imaginar que os saduceus, à guisa de sátira, reinterpretaram “fariseus” como “persas”. Os saduceus certamente pensavam que eles é que preservavam a religião dos antigos, e viam os fariseus como inovadores perigosos – modernistas, para ser claro.

Os fariseus ascenderam a uma posição de influência, quando Alexandre Janeu foi sucedido por sua viúva Salomé Alexandra; seu reinado de nove anos (76-67 a.C.) foi lembrado na tradição rabínica como uma pequena idade de ouro. Herodes lhes deu uma atenção respeitosa na primeira parte do seu reinado; ainda no ano 17 a.C., ele os liberou de um juramento de lealdade que exigia dos seus demais súditos. Pouco depois disso, porém, ele começou a se ressentir da teimosia deles, e, ao impor um novo juramento de lealdade em 7 a.C., a si mesmo e a Augusto, multou os fariseus - a grande maioria – que se recusaram a jurar. Quando, perto do fim da sua vida, alguns discípulos de fariseus, instigados por seus professores, derrubaram a grande águia dourada que ele colocara sobre a entrada do templo, ele se vingou de modo atroz.

Sob a administração romana, os fariseus estavam representados no Sinédrio. Apesar de eles serem minoria, segundo Josefo, sua influência sobre o povo era tal que a maioria dos saduceus e sumo sacerdote era obrigada a respeitar as opiniões deles. Muitos escribas, talvez a maioria – os expositores profissionais da lei e dos profetas – eram discípulos dos fariseus e difundiam as interpretações deles.

Os fariseus se organizavam em grupos locais. Esses grupos eram chamados de habûrah; cada membro de um habûrah era um haber dos outros membros. Josefo, que nos diz que desde os seus dezenove anos de idade ele organizou sua vida segundo as regras dos fariseus, estima seu número em mais ou menos 6.000.

Por causa da preocupação meticulosa deles com as leis de pureza e o dízimo, eles não conseguiam conviver facilmente com aqueles, mesmo entre os judeus que não insistiam tanto nesses particulares como eles. Isso dizia respeito à grande maioria da população judaica da Palestina, camponeses e artesãos, que não podiam dedicar tanto tempo ou interesse ao estudo dessas leis como os fariseus. Estes, por isso, costumavam falar com desprezo do “povo da terra”, como os chamavam, porque essas pessoas, na opinião deles, eram incapazes da verdadeira religiosidade. Por outro lado, os fariseus eram criticados, por serem muito frouxos em sua busca da santidade pelos sectários de Qumran que promoveram sua própria “separação”, a ponto de se isolar (para não dizer enclausurar) e, com Isaías 30.10 na cabeça, diziam que os fariseus “procuravam coisas aprazíveis” ou (como a frase também pode ser traduzida) “davam interpretações aprazíveis”.

Um a certa idéia de família caracterizava certamente o movimento dos fariseus, mas havia uma ampla variedade dentro dele – em parte conseqüência das diversas escolas de interpretação, e em parte de diferentes temperamentos e motivações. Uma passagem do Talmud, citada com freqüência, se bem que bastante posterior, faz distinção entre sete tipos de fariseus, dos quais apenas um, o fariseu que é fariseu por amor a Deus, recebe elogios sem restrições.


3 – O Farisaísmo nos Dias de Paulo

Nos primórdios da era cristã havia duas escolas principais de interpretação legal, fundadas respectivamente por Shammai e Hillel. À escola de Shammai tradicionalmente é atribuída uma interpretação mais rígida do que à escola de Hillel – não apenas na aplicação das leis individuais, mas também na postura, em relação à lei como um todo. Os discípulos de Shammai consideravam a quebra da lei (por ação ou omissão) uma quebra da lei como tal, enquanto os discípulos de Hillel ensinavam que o julgamento divino estava relacionado à preponderância do bem ou do mal, na vida inteira da pessoa.

Uma das afirmações mais bem conhecidas de Hillel é sua resposta a um homem que lhe pediu para resumir toda a lei no menor número possível de palavras. Hillel disse: “Aquilo que para você é detestável, não o faça aos outros, isso é toda a lei, todo o resto é comentário”. Essa citação da regra de ouro negativa como resumo da lei podia ser interpretada de maneiras que muitos fariseus teriam considerado perigosas. Mesmo se não foi essa a intenção de Hillel, pode ter encorajado alguém a argumentar, ao defrontar-se com um mandamento específico da lei, que este era obrigatório apenas até o ponto de evitar o sofrimento do próximo ou promovia o seu bem. Isso, segundo a opinião prevalente entre os rabinos, introduzia um critério subjetivo ilícito; era muito melhor que as pessoas, ao serem confrontadas com um mandamento da lei, obedecessem a ela simplesmente porque era um mandamento do Santo: não há porque perguntar por quê.

Que tipo de fariseu era Paulo? A pergunta não é fácil de responder. De acordo com Atos 22.3, ele foi instruído na escola de Gamaliel, e a tradição posterior faz de Gamaliel o sucessor de Hillel e líder da sua escola, e às vezes até seu filho ou neto. Mas as tradições mais antigas que refletem algumas recordações diretas do homem e seu ensino não estabelecem nenhum vínculo entre ele e a escola de Hillel. Em vez disso, falam de pessoas que pertenciam à escola de Gamaliel, como se ele tivesse fundado a sua própria.

Há certa dificuldade em distinguir as tradições sobre esse Gamaliel daquelas sobre um professor posterior com o mesmo nome (Gamaliel II, c. 100 d.C.), mas as tradições que pressupõe que o templo ainda estava de pé, certamente se referem ao Gamaliel anterior. Dizia-se que, “quando Rabban Gamaliel mais velho morreu, a glória da Tora cessou, e pureza e separação morreram” – o que quase equivale a dizer que ele foi o último dos verdadeiros fariseus, já que “separação” (heb. p’rîsût) vem da mesma raiz de “fariseus” e pode até ser traduzido por “farisaísmo”. Ente as regulamentações que lhe são atribuídas, está uma que liberaliza a lei do novo casamento após o divórcio.

Tanto nas tradições rabínicas como no Novo Testamento Gamaliel aparece como membro do Sinédrio. Lucas relata que, no estágio inicial da igreja em Jerusalém, os apóstolos foram acusados perante esse tribunal de desobedecer a sua orientação anterior de não ensinar publicamente no nome de Jesus. Quando alguns membros do tribunal queriam tomar medidas extremas contra eles, “um fariseu, chamado Gamaliel, mestre da lei, acatado por todo o povo” (At 5.34), lembrou seus colegas de outros movimentos no passado recente que pareciam ser perigosos por um tempo curto, mas logo entraram em colapso. E ele acrescentou (v. 38s):

"Agora, vos digo: dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus".

Isso certamente é doutrina típica dos fariseus. As pessoas podem desobedecer a Deus, mas sua vontade triunfará mesmo assim. A vontade do ser humano não é cerceada, mas o que ele quer é superado por Deus, quando realiza os seus propósitos. Nas palavras de um rabino posterior, o fabricante de sandálias Yohanan, “todo ajuntamento em prol do céu será confirmado, mas o que não é em prol do céu no fim não será confirmado”. Que Gamaliel seguiu a linha atribuída a ele por Lucas é o que devíamos esperar.

No entanto, se essa era a linha de Gamaliel, certamente não era a de Paulo. Na maioria das questões, por exemplo, na esperança da ressurreição e nos métodos de exegese bíblica, Paulo provavelmente foi um aluno apto e um seguidor fiel do seu professor. Até se chegou a pensar que um aluno de Gamaliel do qual não se diz o nome, mas que apresentou “descaramento em questões de estudo” e tentou refutar seu professor, era ninguém menos que Paulo. Se esse é o caso (o que é bastante incerto), então a tradição reflete a desaprovação com o posterior abandono do caminho rabínico por Paulo; não preserva uma recordação da conduta de Paulo, enquanto esteve aos pés de Gamaliel. Em um aspecto, porém, Paulo desviou-se do exemplo do seu mestre: ele repudiou o a idéia de que uma política de contemporização era a mais adequada em relação aos discípulos de Jesus. Em sua cabeça, esse novo movimento constituía uma ameaça mais mortal a tudo o que ele aprendera a valorizar do que Gamaliel parecia capaz de entender. Além disso, o temperamento de Paulo parece ter sido bem diferente do de Gamaliel: em contraste com a paciência e tolerância de estadista de Gamaliel, Paulo era caracterizado, em suas próprias palavras, por uma superabundância de zelo – que, realmente, ele nunca perdeu de todo.

Como o objeto do seu zelo eram as tradições dos ancestrais – a antiga lei de Israel e sua interpretação como era ensinada na escola de Gamaliel – não devemos ficar surpresos de saber que ele estava insatisfeito com a idéia dos seguidores de Hillel de que um mera preponderância do bem sobre o mal, na vida de alguém, era suficiente para lhe conseguir um veredito favorável, no dia do julgamento. Nesse ponto, pelo menos, ele parece ter se inclinado mais para a posição dos seguidores de Shammai de que a lei tinha de ser obedecida em sua totalidade. Que essa era a postura de Paulo está implícito mais tarde, quando ele diz aos seus convertidos na Galácia, que estavam sendo pressionados a adotar certas exigências legais do judaísmo, que eles não podiam pensar que, se escolhessem essa maneira de ser aceitos por Deus, podiam escolher os que quisessem entre os mandamentos divinos: “Testifico a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei” (Gl 5.3). Essa atitude em relação à lei determinou a atitude hostil de Paulo em relação aos seguidores de Jesus e seu ensino.

O próximo artigo desta série é QUANDO VEIO A PLENITUDE DO TEMPO

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